Jaider Esbell – arte em luto / art in mourning

by | Nov 10, 2021 | Brazil, Indigenous people | 0 comments

Portuguese version (English version below)

O mundo das artes e o movimento indígena brasileiros foram surpreendidos na semana passada pela noticia da morte inesperada do artista Macuxi Jaider Esbell, aos 41 anos. Jaider era colaborador do projeto CARLA desde o seu início. Nascido na cidade de Normandia, em Roraima, Jaider cresceu na comunidade Macuxi, na área que mais tarde iria se transformar na Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Jaider despontou para o mundo das artes há pouco mais de quatro anos, e nesse curto período conseguiu abrir espaços para a sua arte e para a arte indígena de maneira geral nos mais conhecidos museus e exposições do Brasil. Seus trabalhos para a última Bienal de São Paulo (2021) foram descritos como a “espinha dorsal” da exposição, e obras suas vinham sendo adquiridas para acervos importantes como o da Pinacoteca de São Paulo e do Centro Pompidou em Paris, entre outros. Jaider era pintor, desenhista, performer, escritor. Era também teórico, com uma produção importante em palestras e em textos online e impressos, sobre Arte Indígena Contemporânea, um rótulo que adotara junto com outros artistas e estudiosos para discutir a produção visual na qual se inseria. Sob esse rótulo, Jaider se auto-descrevia como “neto de Makunaima ou Makunaimî”, o herói cultural Macuxi e Pemon apropriado por Mário de Andrade para escrever o seu romance homônimo (1928). Enquanto neto de Makunaima, Jaider criou um grupo de estudos e de criação que visava interpelar criticamente o modernismo paulista, re-apropriando ou “re-indigenizando” conceitos teóricos do modernismo, como a antropofagia e o a ideia do herói “sem nenhum caráter”.

Profundamente inquieto e revolucionário, Jaider questionava constantemente as premissas da arte ocidental, tanto em suas obras (como a “Carta ao velho Mundo”, uma genial intervenção num volume de uma “enciclopédia de Arte universal”), como em suas performances e entrevistas. Jaider insistia que não era artista, pois o que fazia era política, ou cosmopolítica. Jaider via a arte indígena como uma prática política, anti-colonial, uma prática que poderia oferecer alternativas para a destruição ambiental e cultural promovida pelo capitalismo da mono-cultura. Apesar de produzir uma quantidade impressionante de obras individuais, Jaider era sobretudo um artista coletivo, que buscava colaborações com outros artistas e artivistas indígenas e não indígenas. Nesse sentido, trabalhou também como curador, tendo criado, por exemplo, a Galeria de Arte Indígena Contemporânea Jaider Esbell em Boa Vista, Roraima, onde expunha artistas locais. Ele era um promotor incansável da arte indígena – não só o que chamava de arte contemporânea, mas também aquilo que a arte ocidental chamaria de artesanato: as panelas macuxis, as bijuterias indígenas, a pintura corporal – que são, como ele insistia, arte. Na sua colaboração para o CARLA, Jaider produziu, junto com uma de suas colaboradoras, Paula Berbert, um vídeo descrevendo as obras que integram a sua galeria, e os conceitos por trás de sua criação. Não só o Brasil, mas o mundo, perdeu neste mês um grande artista, ativista e pensador. Felizmente ficaram as suas obras, como testemunhas da sua inquietação, de sua arguta capacidade de pensar e repensar o mundo, e de torná-lo mais belo.

Lúcia Sá

A seguir reproduzimos um texto recente publicado online pelo artista indígena Denilson Baniwa. 

Arte em luto

Olá, Espero que esteja firme mesmo nestes tempos difíceis que passamos.

Como deve saber, esta semana fomos surpreendidos pelo encantamento de Jaider Esbell.

Desde que eu e ele nos encontramos neste mundo, vivemos e construímos juntos caminhos que penso que foram importantes para a cena que se nota hoje.

Ele foi um amigo a quem eu chamava de maninho, modo carinhoso de chamar irmão na região onde nasci. Como irmão, nos amamos, brigamos, discutimos, brincamos, viajamos juntos pelo calor e frio do mundo, rimos, choramos, “bagunçamos o coreto” como dizem por aqui, ficamos sem nos falar, voltamos a nos falar, trabalhamos, pulamos em muitos rios e mares, concordamos com muita coisa, discordamos de outras muitas coisas, mas em uma coisa erámos incorruptíveis: no desejo de construir uma arte onde pessoas indígenas pudessem ter voz ativa e chances de quem sabe chegar ao topo, lugar onde nunca estivemos antes. Jaider chegou a esse lugar e o que para os brancos é considerado sucesso (ou a melhor fase de sua carreira, como li em matérias de jornais), para nós dois esse fake-sucesso-branco, foi dia a dia tornando-se um peso. Infelizmente ficou pesado demais para ele, mas poderia ter sido para qualquer um de nós artistas indígenas. A cobrança de respostas para salvar a arte, a pressão por não falhar em nossa caminhada ou com nossos parentes indígenas, a ininterrupta fome de quem nos vê como uma novidade devorável no mercado, tudo isso que é considerável sucesso e o auge da carreira é um muro que nos cerca e nos tira do que é mais importante: uma vida saudável.

No momento em que sentimos as mãos do mundo ocidental nos puxar, eu me retirei para desacelerar e pensar sobre o que estava acontecendo. Primeiro foram as redes sociais, que voltei e revoltei, pois, me ligavam, mandavam mensagens como uma exigência de que era preciso estar online o tempo todo, e pior, disponível o tempo todo. Depois deletei meu número e comprei um número novo de celular só para amigos ou para quem eu quisesse dar atenção. Poucas semanas atrás deletei de novo minhas redes sociais a fim de sair dessa pressão em estar sempre disponível e sendo obrigado a responder como “descolonizar o mundo”. Como se isso fosse nossa responsabilidade, salvar o mundo sozinhos. Como se não fosse uma responsabilidade de todos. Ah, não! Nós somos obrigados a salvar um mundo que nunca nos quis, mas no momento que precisam nos recorrem e exigem que estejamos à disposição. Demorou trinta e dois anos para o mundo me dar atenção, eu sei que muitos dos abraços e beijos hoje, só fazem parte da etiqueta social dos brancos. Antes disso só recebíamos desprezo desse mundo. Mas, esse sangue indígena que guarda rancor, mas ao mesmo tempo quer amar o mundo, nos faz aceitar essa etiqueta branca.

Estive com Jaider a semana passada, conversamos pouco pois nossos e-mails estavam lotados, nossa caixa de mensagem estava lotada, nossos horários estavam lotados. Mesmo todo dia juntos, do café da manhã à hora de dormir, por uma semana inteira conversamos pouco. E nas poucas conversas nossas reclamações eram as mesmas, a vontade de socar a cara da próxima pessoa que nos pedisse uma webreunião. Jaider estava cansado. Eu estou cansado. Nós estamos cansados.

O que é postado nas redes sociais não representam o quanto de dor estamos passando diariamente. O Jaider Esbell fora do online não era o postado. O Denilson Baniwa fora do online não é de longe o que vocês veem em lives. Quantas lives eu fiz forçando estar bem para não deixar ninguém preocupado. Quantas lives literalmente eu fiz doente, com febre, com dor. Mas isto não era postado. E eu, e com certeza Jaider não fazemos isso pra agradar branco ou pra ficar famoso, o motivo principalmente era pra construir um caminho para outros indígenas, construir possibilidades para os nossos. Éramos o espelho para quem é indígena ainda sonha em ser artista ou ser qualquer coisa diferente da realidade horrorosa que jovens e crianças indígenas vivem hoje. Nos forçamos a estar disponíveis para um mundo que enquanto baniwa eu acredito: para aqueles que ainda irão nascer.

Mas isso pesa. Deste modo, peço com muito respeito ao Jaider e aos artistas indígenas passados-presentes-futuros que cuidemos que esse caminho aberto por nós nunca seja interditado, nunca deixe o mato cerrar. Que nós, eu e você limpemos o caminho sempre e que num futuro próximo seja mais fácil de caminhar nele. Cuidemos da memória de Jaider Esbell. E principalmente, cuidemos para que seja mais leve o caminhar, o nosso e de outras pessoas.

Pois entendendo que se o sucesso e topo a que tanto lutamos, tem como resultado a tragédia, sinto que preciso pensar ainda mais sobre que tipo de arte indígena eu tenho que construir. E se a recepção que o mundo da arte ocidental nos deu, levou um de nós ao grave fim, preciso pensar ainda mais em que tipo de relação quero manter com a arte ocidental.

Eu vou desacerelar ainda mais, até o ponto que seja um cooper e não um triathlon. Meu trabalho continuará em honra de Jaider Esbell, assim como era em memória de tantos outros parentes indígenas antes de mim. Se é pela arte que resistiremos, vai ser pela arte. Mas da minha parte ela não será para satisfazer a fome de nenhum glutão da arte.

Com carinho e admiração.

Denilson Baniwa

 

English version

The art world and the Brazilian Indigenous movement were surprised last week by the news of the unexpected death of Macuxi artist Jaider Esbell, aged 41. Jaider was a contributor to the CARLA project since its inception. Born in the city of Normandia, in Roraima, Jaider grew up in a Macuxi community, in the area that would later become the Raposa Serra do Sol Indigenous Territory. Jaider emerged into the art world a little over four years ago, and in that short period he managed to open spaces for his art and for Indigenous art in general in the best known museums and exhibitions in Brazil. His works for the last São Paulo Biennial (2021) were described as the “backbone” of the exhibition, and his works were being acquired for important collections such as the Pinacoteca de São Paulo and the Centre Pompidou in Paris, among others. Jaider was a painter, sketch-artist, performer and writer. He was also a theorist, producing many important lectures and online and printed texts on Contemporary Indigenous Art, a label he adopted along with other artists and scholars to discuss the current of visual production in which he located himself. Under this label, Jaider described himself as “the grandson of Makunaima or Makunaimî”, the Macuxi and Pemon cultural hero who was appropriated by Mário de Andrade to write his homonymous novel (1928). As Makunaima’s grandson, Jaider created a group dedicated to studying and creating that aimed to critically challenge São Paulo’s modernism, re-appropriating or “re-indigenizing” theoretical concepts of modernism, such as anthropophagy and the idea of ​​the hero “without any character”.

Deeply restless and revolutionary, Jaider constantly questioned the premises of Western art, both in his works (such as the “Letter to the Old World”, a brilliant intervention into a “universal art encyclopaedia”), as well as in his performances and interviews. Jaider insisted that he was not an artist, as what he was doing was politics, or cosmopolitics. Jaider saw Indigenous art as a political, anti-colonial practice, a practice that could offer avenues to escape from the environmental and cultural destruction promoted by mono-culture capitalism. Despite producing an impressive amount of individual works, Jaider was above all a collective artist, who sought collaborations with other Indigenous and non-Indigenous artists and artivists. In this sense, he also worked as a curator, having created, for example, the Jaider Esbell Contemporary Indigenous Art Gallery in Boa Vista, Roraima, where he exhibited local artists. He was a tireless promoter of Indigenous art – not only what he called contemporary art, but also what Western art would call handicraft: Macuxi pots, Indigenous jewellery, body painting – which are, as he insisted, art. In his collaboration with CARLA, Jaider, together with one of his collaborators, Paula Berbert, produced a video describing the works that make up his gallery, and the concepts behind their creation. This month, not only Brazil, but the whole world, lost a great artist, activist and thinker. Fortunately, his works remain, as a testament to his restlessness, his keen ability to think and rethink the world, and to make it more beautiful.

Lúcia Sá

Below, we translate a recent text published online by Indigenous artist Denilson Baniwa. 

Art in mourning

Hello, I hope you are standing firm even in the difficult times we are going through.

As you may know, this week we were surprised by the death of Jaider Esbell.

From the time he and I met in this world, we lived and built paths together that I think have been important to the scene that we can see today.

He was a friend whom I called “little bro”, an affectionate way of calling a brother in the region where I was born. As brothers, we loved each other, fought, argued, played, travelled together through the heat and cold of the world, laughed, cried, “messed up the place” as we say around here, stopped talking to each other, started talking to each other again, worked, dived into many rivers and seas, agreed on many things, disagreed on many others, but we were incorruptible in one thing: the desire to build an art scene where Indigenous people could have an active voice and a chance of maybe reaching the top, a place where we had never been before. Jaider reached this place, what for the whites is considered success (or “the best phase of his career,” as I read in newspaper articles), but for both of us this fake-white-success was day by day becoming a burden. Unfortunately, the burden became too heavy for him, but it could have been for any one of us Indigenous artists. The demand for answers on how to save art; the pressure not to fail in our journey or in relation to our Indigenous relatives; the continuous hunger of those who see us as a devourable novelty in the market – all this, which is considerable success and the pinnacle of a career, create a wall that surrounds us and takes us away from what is most important: a healthy life.

The moment we felt the hands of the Western world pulling us, I stepped back to slow down and think about what was happening. First, it was the social networks, which I repeatedly came back to and rebelled against because they kept calling me, texting me with the demand to be online all the time, or worse, available all the time. Then I deleted my number and bought a new mobile phone number just for friends or whoever I wanted to pay attention to. A few weeks ago I deleted my social networks again in order to get away from this pressure to be always available and being forced to answer how to “decolonise the world”. As if that was our responsibility, to save the world on our own. As if it were not everyone’s responsibility. Oh, no! We are obliged to save a world that never wanted us, but the moment they need us, they turn to us and demand that we are available. It took thirty-two years for the world to pay attention to me, and I know that many of the hugs and kisses today are only part of the social etiquette of white people. Before that, we only received contempt from this world. But, our Indigenous blood, which holds a grudge and at the same time wants to love the world, makes us accept this white etiquette.

I was with Jaider last week, we talked little because our e-mail in-boxes were full, our message boxes were full, our schedules were full. Even though we were together every day, from breakfast to bedtime, for a whole week, we talked little. And in the few conversations we had, our complaints were the same: the urge to punch in the face the next person who asked us for a virtual meeting. Jaider was tired. I am tired. We are tired.

What is posted on social media does not represent how much pain we are going through on a daily basis. The off-line Jaider Esbell was not the same person that people saw online. The off-line Denilson Baniwa is far from what you see in “live-streamings”. How many live-streamings have I done forcing myself to appear to be well so that no one would worry. In how many live-streamings have I literally been ill, feverish, achy. But these things are never posted online. And I, and certainly Jaider, didn’t do this to please white people or to become famous. The main reason we did it was to build a path for other Indigenous people, to build possibilities for our own kind. We were a mirror for those Indigenous persons who still dream of becoming an artist or being in anything other than the horrific reality that Indigenous youth and children live in today. We forced ourselves to be available for a world that, as a Baniwa, I believe in: for those who are yet to be born.

But this is a burden. So, I ask, with much respect for Jaider and for the past-present-future Indigenous artists, that we make sure that this path opened by us is never blocked, that we never let the forest close over it. That we, you and I, always keep the path clear so that in the near future it will be easier to walk along. Let’s take care of Jaider Esbell’s memory. And above all, let’s make sure that we and others can walk more lightly. 

Because if the success and the pinnacle that we strive so hard to reach result in tragedy, I feel that I need to think even more about what kind of Indigenous art world I have to build. And if the reception that the Western art world has given us has brought one of us to a tragic end, I need to think even more about what kind of relationship I want to have with Western art.

I will slow down even more, to the point that it is going to be a jog and not a triathlon. My work will continue in honour of Jaider Esbell, just as it was in memory of so many other Indigenous relatives before me. If it is through art that we will resist, so be it. But for my part it will not be to satisfy the hunger of any art glutton.

With affection and admiration.

Denilson Baniwa

(Translation Felipe Milanez and Lúcia Sá)

 

 

 

 

 

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